• August 8, 2026

Que Liga um Painel de Luz Vermelha a um Servidor Chinês no Fundo do Mar?

Que liga, na prática, um painel de luz vermelha vendido para uma casa de banho em Amesterdão a um servidor chinês instalado no fundo do Mar da China Meridional? À primeira vista, nada. Produtos diferentes, indústrias diferentes, clientes que nunca se vão cruzar. E, no entanto, os dois têm o mesmo investidor por trás: Luciano de Vries, empresário neerlandês hoje radicado em Tomar, cuja carteira reúne cerca de trinta apostas espalhadas por setores que raramente aparecem lado a lado.

Vale a pena olhar para cada um destes negócios antes de perceber o que os une, porque a resposta não está na superfície.

Já não é um nicho

É no mercado da terapia de luz vermelha que De Vries tem uma parceria com a barrelsauna.nl, e esse mercado saiu de pouco mais de 870 milhões de dólares em 2018 para além de 1,2 mil milhões seis anos depois. Scott Chaverri, à frente da marca Mito Red Light, projeta uma continuação desse ritmo, cerca de 5,4 por cento ao ano até 2030, o que levaria o valor global a rondar 1,7 mil milhões de dólares, segundo a Skin Inc.

Poucos sabem que essa tecnologia começou bem longe de qualquer casa de banho: em laboratórios da NASA, testando se a luz vermelha ajudava tecido humano a regenerar em ambientes de microgravidade, uma origem que a Forbes Vetted resgatou no artigo “The Billion-Dollar Glow”. A parte doméstica do mercado, entretanto, é hoje a mais ativa: soma mais de 440 milhões de dólares em 2025 e deve chegar aos 658 milhões até 2032. Numa apresentação em Nova Iorque, na conferência Be+Well, a Spate documentou um crescimento de 34 por cento nas pesquisas por máscaras LED num único ano. A conta soma Google e TikTok. Isso já aparece na prateleira, com marcas como a Omnilux e a HigherDose a comercializar chuveiros com luz vermelha embutida e painéis compactos, algo que há dez anos só existia dentro de uma clínica, puxada sobretudo por consumidores mais novos que, segundo Julie Johnson, da HealthFocus International, querem ver o efeito no espelho antes de qualquer promessa de saúde a longo prazo.

Um oceano que resolve um problema de eletricidade

Os centros de dados submarinos, outra aposta no portefólio de De Vries, partem de uma conta simples de fazer: em terra, uma fatia de 40 a 50 por cento de tudo o que um centro de dados paga em eletricidade vai apenas para arrefecer máquinas, e ao levar esse mesmo hardware para debaixo de água esse número cai para cerca de 10 por cento, porque a água do mar assume o trabalho sem gastar energia extra. Isso traduz-se num rácio de eficiência energética perto de 1,15, contra a faixa de 1,4 a 1,6 típica mesmo em boas instalações terrestres.

A Microsoft já tinha provado que a ideia funciona, mesmo sem um plano comercial imediato: quase dez anos de testes com o Project Natick renderam uma taxa de avarias de só 0,7 por cento entre as máquinas debaixo de água, um oitavo do que se via nos equivalentes construídos em terra firme, onde a falha chegava a 5,9 por cento. O projeto acabou engavetado quando ficou claro que, naquele momento, a procura ainda não justificava o investimento necessário para escalar. Isso mudou na China, hoje dona de duas instalações comerciais: o Hainan Cluster atende China Telecom, Tencent e SenseTime a um ritmo de sete mil pedidos de inteligência artificial por segundo, e a unidade de Lin-Gang, perto de Xangai, entrou em operação em outubro de 2025 com um investimento de 226 milhões de dólares. Tira 97 por cento da energia que usa de parques eólicos no mar. A geografia ajuda ainda mais o argumento: com mais de metade da humanidade a viver a menos de cem quilómetros do litoral, um centro submerso fica fisicamente próximo de quem mais pede inteligência artificial. Isso encurta distância e tempo de resposta.

A resposta está numa frase que De Vries repete sempre que descreve o critério por trás de cada investimento: “O capital é uma mercadoria. A convicção não é.” É uma linha carregada de experiência prática, vinda de alguém que já precisou de convencer outros a apostar num negócio próprio: fundou e vendeu a Costa Events, uma promotora de eventos de verão espanhola, e mais tarde abriu mão do comando diário da GAET Holding para ficar apenas com uma cadeira de acionista.

Onde os dois finalmente se encontram

Esse histórico explica escolhas que, à primeira vista, pareceriam sem relação nenhuma entre si. Em Viena, mantém uma posição de dívida privada com colateral e retorno desproporcional, pensada para segurar a carteira caso uma das apostas mais especulativas, como os drones autónomos que financia na Alemanha para tarefas fabris repetitivas ainda dependentes de mão humana, não dê certo. Em inteligência artificial, prefere financiar quem constrói em cima de modelos já existentes em vez de tentar criar o próximo, por acreditar que é ali que o valor vai se acumular conforme a tecnologia amadurece.

O que liga, então, um painel de luz vermelha a um servidor chinês no fundo do mar é uma única pergunta, a mesma que De Vries diz colocar a si próprio antes de assinar qualquer cheque: o fundador por trás do negócio continuaria a tentar resolver aquele problema mesmo sem financiamento externo? Trinta apostas depois, é o único critério que aplica sem exceção.